Samurai Mágico Claudio Seto

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Vou lhe levar a uma época em que os quadrinhos brasileiros existiam.

Uma época em que haviam dezenas de publicações de todos os tipos e o quadrinho nacional meio que emparelhava à produção estadunidense em termos de quantidade… Quiçá de qualidade.

Estamos em 1964, ano em que este pobre missivista nasceu. Golpes, ditadura, opressão, coisas estranhas aconteciam em toda parte. Nem todo mundo abria a boca e quem abria.. Ia pro “beleléu”, como dizíamos na época.

As HQs iam de vento em popa. Grandes editoras publicavam tiragens fantásticas. As bancas estavam apinhadas de tudo quanto era tipo de produção e, acompanhando os grandes sucessos, o autor nacional de HQ também tinha seu espaço.

Surgiu na Edrel um raro grupo de desenhistas: eram os nikeis, popularmente chamados de “japoneses”. Naquela época, autor nacional podia publicar, desde que se encaixasse em certos padrões. Hoje… Não.

Nessa leva de autores, havia o recém-falecido Claudio Shuji Takeguma Seto. Ou Claudio Seto, como gostava de assinar.

Nascido em uma família abastada (o avô fabricava saquê), ele teve a grata sorte de ter “ido estudar mangá” no Japão. Talvez seja verdade, talvez não, sei lá. Não importa. (mas eu acho que é mentira porque, convenhamos, essa história vem de um cara que disse ter um irmão gêmeo, coisa que sua esposa nega)

O que importa é que há mais de 40 anos atrás, Seto fazia quadrinhos influenciados pelos maiores autores de mangá da época (e que pela miséria e ignorância dos editores brasileiros, até hoje mal conhecemos).

Seto era um autor único. Enquanto seus “colegas” nikeis seguiam a escola de desenho dos EUA ou da Europa, Seto “rebelava-se” e levava ao público um estilo inteiramente novo, diferente, inusitado e que haveria de dominar o mundo: o mangá.

O trabalho do Seto que agora lhe ofereço, por indicação de nosso considerado Quiof (o último carioca digno) foi publicado na Edrel nos anos 60/70. Certamente é um de seus primeiros trabalhos e merece ser conhecido.

Para a época era algo bastante interessante, mostrando um traço relativamente seguro e com temática inovadora: samurais, ninjas, batalhas de exércitos e muita ação vertiginosa. Prá época, se fosse melhor trabalhado em termos de marketing, nem imagino o que teria acontecido. Mas passou batido.

Porém, hoje, com a Internet tornando o mundo menor, percebe-se claramente o plágio de Seto sobre seus autores queridos.

É um traço rico e promissor, apesar de capenga em muitas partes, resultando num autor que prometia concretizar-se em alguém maior que ele mesmo.

A sensação que tive ao ler este gibi é que, hoje em dia, Seto é facilmente superável por boa parte dos atuais autores amadores nacionais… Se estes tivessem um direcionamento. Já vi gente desenhar muito melhor que ele e deus sabe o que aconteceria se essa molecada tivesse apoio sério.

Enfim, para a época, este gibi do Seto está ótimo. Mas não posso negar que tornou-se obsoleto, ultrapassado, datado, uma peça de museu que mostra mais os erros do autor do que seus acertos.

De volta à HQ em questão, percebo que há erros gravíssimos de acabamento, de técnica mesmo, e o decalque das imagens de mangás é descarado (especialmente os fundos de cena). As letras estão medonhas (certamente feitas por ele mesmo), parece que o Seto desenhava sobre papel sulfite…

Para alguém que dizia ter estudado no Japão com os maiores mestres do mangá de todos os tempos, tal resultado é simplesmente pífio, de baixíssima qualidade e uma ofensa aos “mestres”.

Seto na verdade decalcou mais que a imagem: ele chupinhou o conceito mesmo, como é o caso do “menino-ninja” que é um plágio do Kamui (publicado no Brasil nos anos 80 pela editora Abril) e de outros tantos personagens de Sanpei Shirato.

Seto plagia seus mestres sem temor pois, convenientemente, ninguém no Brasil os conhecia: as cenas de batalha são decalcadas de Goseki Kojima. O design do menino é Tezuka até o talo. Tá tudo ali. O que mostra o seu grau de amadorismo criativo e uma boa dose de preguiça.

O erro do Seto, como o foi de todos os autores da época, foi que ele não pensou no futuro. Ele era um cara imediatista, como era toda a rapaziada que fazia quadrinhos naquele tempo: o editor topava, ele desenhava e pau na máquina, tudo que fosse de longo prazo não importava. Ele era empregado e nada mais.

Seto poderia ter trabalhado registrando e licenciando seus personagens que, apesar de plágios, poderiam se desdobrar em criações mais ricas. Afinal, Disney e mesmo Tezuka plagiavam histórias e personagens famosos, apenas acrescentando uma nova visão e derivando criações incríveis.

Seto nunca fez isso. Ele apenas reciclava o mangá que conhecia e nada mais. Sem apresentar uma nova visão. Se fizesse isso, o universo dos samurais haveria de ser um “must” em alguns anos e este “desbravador” das HQs nacionais tornar-se-ia um verdadeiro e autêntico ícone.

Mas não era interesse dele. Nem de ninguém. Agir profissionalmente nesse sentido era meio que “trair” sua profissão… Apesar de Osamu Tezuka ter ficado milionário licenciando Tetsuwan Atomu (plágio indireto de Pinoquio do seu “mestre” Disney… Que se fez usar de um personagem de domínio público para não ter que pagar direitos a ninguém)

Seto errou. Para mim é difícil dizer isso pois muito 0 admirei durante anos mas não posso negar suas falhas.

Falhas essas que resultaram num autor que, no final da vida, converteu-se numa melancólica sombra de si mesmo, fracassando como autor e restando-lhe um merecido (e por vontade própria) ostracismo. Fazendo banalidades como horóscopos ou ilustrando tolices para jornais.

Sato sabia disso pois, em entrevista recente, desdenhava a modernidade das HQs, desconhecendo Alan Moore e mesmo Katsuhiro Otomo, mergulhado até o pescoço num egocentrismo infantil e alimentando uma arrogância típica dos que fracassaram perante a si mesmo.

Restou ao meu querido Claudio Shuji Takeguma Seto abraçar suas raizes japonesas, fazendo ilustrações e HQs menores num jornal da colônia japonesa para que, no final de tudo, seja “agraciado” com a praga de ser “membro” da CQB, esses cretinos e amaldiçoados ladrões da miséria alheiam esses saqueadores dos túmulos da HQ nacional.

Baixe esse quadrinho importante, essa peça do que poderia ter sido sem jamais vir a ser, clicando…

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© Copyright 2008 Popegá!

Texto retirado do It’s BK Time

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