A Nova Fronteira


Anos 50, Estados Unidos. A Comissão de Atividades Antiamericanas, com o senador Joe McCarthy em sua linha de frente, faz com que os heróis, pouco após o fim da Segunda Guerra Mundial, tenham uma difícil decisão a tomar: revelar suas identidades secretas para o governo e o público ou, então, entrar numa forçosa clandestinidade, acusados de serem traidores da América.

Com a decisão surpreendente de debandada do maior grupo de heróis da Terra, a Sociedade de Justiça da América, abriu-se um grande precedente e muitos outros paladinos abandonaram suas carreiras, protegendo assim seus pares, seus familiares e amigos, bem como seus possíveis segredos.

Mas, paralelamente, novas engrenagens se moviam, novos destinos se cruzavam e pessoas como Barry Allen, Hal Jordan, Oliver Queen, Ace Morgan e John Jones se prepararam, a cada dia e sem ter esta exata consciência, para iniciarem uma nova era de heróis.

Desde sua primeira aparição definitiva no mundo dos quadrinhos, com a surpreendente graphic novel do Batman, Ego (publicada no Brasil pela Mythos), Darwin Cooke já mostrava a que vinha. A elegância de seu traço, combinando elementos das animações recentes da DC com sua vasta experiência como diretor de arte em publicidade, só fizeram com que o bem tramado roteiro deste especial do Morcego ganhasse quase imediatamente o rótulo de imperdível.

A verdade é que cada história de Cooke é claramente especial, com um frescor inusitado – levando-se em conta que muito de sua narrativa resgata elementos retroativos. Os leitores e o mercado sabem disso e, merecidamente, ele papou o último Eisner, por seu trabalho no volume 5 de Solo (série da DC dedicada a mostrar os universos particulares de grandes criadores das HQs atuais).

Falar de A Nova Fronteira, portanto, é falar de uma obra escrita por um criador que dignifica a área em que atua, respeita as tradições sem ser tradicionalista e tem um sentimento claro de que sempre há boas histórias a serem contadas.

E é simples o que Cooke fez, em teoria: unificou o passado de nosso universo real ao que estava nos quadrinhos. A ambientação, em plenos anos 50, remete o leitor a um mundo com corrida espacial, guerra fria, macarthismo, caça aos comunistas, revoluções que mudaram o mapa do mundo. Imagine se adicionarmos a estas contas o Universo DC.

Um aspecto precioso da construção da série é o alinhavar perfeito de personagens, suas influências na vida de outros; as relações humanas entre os mais que humanos, enfim. É uma história sobre, basicamente, o que as pessoas podem ter de melhor e de pior, de seus sonhos e aspirações, de suas dores e frustrações, do conjunto de experiências que moldará cada uma delas e as tornará parte de uma época sempre considerada menos valiosa. Mas que é a verdadeira base do heroísmo moderno.

Assim, não é por acaso que um grupo esquecido de combatentes da Segunda Guerra, tragicamente chamado Os Perdedores, direciona definitivamente a carreira de Rick Flagg no exército, carreira esta que se conecta à de Ace Morgan e, esta, à de Hal Jordan e John Jones. Tudo dentro do mais absoluto conceito de cronologia, que alguns autores fazem questão de abominar, simplesmente por não conseguirem lidar com ela.

Os grandões não ficaram de fora: Batman, Superman e Mulher-Maravilha (em suas visões clássicas) estão presentes e, surpreendentemente, cada um tem uma visão única do que está acontecendo, sendo que, aparentemente, o azulão é uma figura, neste contexto, talvez mais sombria que o Morcego.

Tudo isso tem, claro, um grande objetivo final: mostrar o afloramento da Era de Prata. Mas como? O que poderia unir pessoas tão díspares, muitas vezes com ideais tão distintos de justiça, liberdade e poder? Em um quadro, próximo ao final do volume, uma grande dica. E a sensação de que perder o fim da história pode ser um dos grandes sacrilégios ao leitor que quer grandes aventuras com seus heróis favoritos.

O tom do roteiro, com vários focos narrativos, é preciso. A arte, magistral. Uma referência que sempre precisa ser feita quando se fala de Cooke, aliás, são suas estonteantes mulheres – Carol Ferris está simplesmente apaixonante, coitado do sr. Jordan!

Apesar disso, justamente a Mulher-Maravilha respeita as características de sua criação original, deixando pra lá a figura quase impossível de beleza que é como lhe caracterizam hoje.

E Dave Stewart, colorista da série, abusa dos tons sobre tom, sempre com uma palheta relativamente restrita, e que confere a série momentos poderosos, como na luta entre Ted “Pantera” Grant e Cassius Clay.

Se você lê ou não quadrinhos, não importa: esta história é fundamental. Se não lê, quem sabe até passe a comprar. Pois são tramas como esta que fazem com que nasça uma nova era, mas de leitores.

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